segunda-feira, 27 de maio de 2013

Texto by Valéria Borges da Silveira



O mar azul, levem-me a vê-lo sem demora, para que eu aprenda, desde cedo, que a violência deve se brandear em espumas. As tempestades, não mais escondam, porque elas trazem a brandura a tiracolo. De presente, dêem-me uma régua somente, para que eu aprenda a fazer meus riscos sem maiores riscos. Mas não me apressem, que além da perfeição, do desfrute, inimiga ela é. Infância, eu só vou ter novamente após os oitenta. Portanto, deixem sua pressa aguardando no cabide.
Se na adolescência eu, por ventura, rasgar uma folha, ao querer impor a impetuosidade da minha letra, deixem que eu aprenda a escrever em todas as texturas humanas, sem jamais rasgar. E se algum papel se me apresentar áspero demais, não me impeçam de tentar minha caligrafia, mas não me deixem abandonar o terreno difícil.
Quando, na volúpia "teen" de escrever, eu não encontrar tempo para tirar os olhos da minha escrita rápida e do meu estilo afrontador, tragam-me um papel de seda, onde eu aprenda a traçar com cuidado. Se ousar um escrever de espadachim, mostrem-me uma lágrima, para que eu me lembre dela mais tarde, quando dela precisar um afago.
Ensinem-me a escrever semínimas e máximas, que ditem calmantes aos que me acompanhem nas dissertações da vida. Se eu, num momento de desvario, quiser pôr um ponto final, transformem-no num ponto e vírgula, ou em reticências, para que eu veja que há tantas vírgulas num texto...
Quando mais usado, por haver escrito epopéias, alexandrinos e romances, heróicos ou não, deixem-me versejar rosas. Deixem-me perceber que não vivi ileso, guardado no escuro. Deixem-me sentir-me gasto em milhares de páginas, a queimar ainda, com rugas de um coração bem batido, envolvido, entregue, e doado.

Autoria de Valéria Borges da Silveira

Escrito em 1995 e reescrito em 2001. Publicado em jornal em Pato Branco em 2001.


Nenhum comentário:

Postar um comentário